CD Aldeia por Nelson Ayres

Lá  por 1979 os músicos paulistas levaram um susto monumental:  de repente, surgindo do nada, apareceu em São Paulo um menino estraçalhando no sax e no clarinete, tocando mais do que muito profissional de nome e tarimba.

Um de seus padrinhos musicais,  o grande trompetista Buda, espalhou para os músicos a única explicação possível: tratava-se de uma aberração genética, uma criação de laboratório – enfim, um bebê de proveta.

O apelido pegou, grudou, e a sina do Nailor Azevedo, filho de ilustre família de músicos de Leme, é a de ser conhecido como “Proveta”.

Acontece  que ser apenas um instrumentista genial não era suficiente pro moleque. Muito esforço, muito tempo, e muita dedicação fizeram surgir também um grande arranjador que, além de dominar os intrincados meandros de harmonia e orquestração, tem também um imenso talento natural para achar a frase bem construída, o ritmo preciso, a unidade arquitetônica que faz com que cada um de seus arranjos tenha CIC e RG.

Resta ainda uma outra qualidade, a principal, que o Proveta provavelmente nem sabe que tem: é uma pessoa absolutamente cativante.

E então ele saiu por aí cativando um monte de gente, inclusive um bando de músicos que se juntaram para formar o melhor som instrumental que São Paulo criou nos últimos anos:  a Banda Mantiqueira.

Na década de 70 eu também dirigi uma big band que tinha basicamente a mesma proposta: um som puramente instrumental, com muito espaço para a criatividade de cada músico, sem preocupação com repertório de sucessos. Era também um grupo de músicos que se reunia uma vez por semana sem ligar para o vil metal, só pelo prazer de tocar juntos.

Foi uma experiência  maravilhosa e inesquecível, mas me deixou uma frustração que confesso agora pela primeira vez: sempre tive o sonho de criar um som de big band genuinamente brasileiro, uma espécie de Severino Araújo contemporâneo, mas na época a atração exercida pelas big bands de jazz era demasiadamente forte, impossível de sobrepujar.

Hoje, ouvir a Mantiqueira é como ouvir o som com que eu sonhava há vinte anos atrás. Choro e gafieira do novo milênio. Os arranjos e a interpretação usam todas as técnicas da história das big bands, mas tem os pés firmemente fincados nos coretos do interior onde muitos dos músicos tocaram em público pela primeira vez. E cada solista abandona o caminho fácil de ser apenas mais um imitador  dos grandes jazzistas para procurar sua própria verdade.

Seriedade e alegria, pé na tábua avec elegance, já são quatro anos de muita briga e nenhuma grana. A imprensa, preocupadíssima com a última moda em Londres. E o público lotando o Vou Vivendo toda segunda-feira para ver a Banda Mantiqueira, com direito a canjas antológicas.

Para não dizer que tudo é perfeito, a Mantiqueira tem uma séria contra-indicação, principalmente para quem sabe tocar: mesmo em pequenas doses, causa uma profunda e irresistível coceira nos dedos.

São Paulo, 08 de agosto de 1996.

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